Depois de muito tempo esperando por mim mesmo, 

ninguém veio.

Eu estou estragado.

Estou sujo de asfalto.

Os carros passam e ninguém me vê.

Saia dos meus negócios. 

 

Pule do prédio em sua piscina. 

Os juizes lhe darão nota dez.

E depois que estiver dentro do pequeno buraco,

não haverá mais nada pelo que morrer.

Onde você estacionou o carro?
A porta estará sempre aberta pra você.
O meu amor é cruel.
O meu amor é cruel.
Eu não quero te seguir voltando pra casa.
Andando
andando
andando
na lua.
Eu não quero bisbilhotar sua janela
enquanto você está amando
amando
amando.

venedig-175Sinceramente, eu não gostaria de estar aqui lhe fazendo este convite… contudo me resta este dever. Jamais lhe aconselharia a seguir tais palavras, ou mesmo enfrentar uma dúvida tão sincera, mas, acredite, será sua última visita a uma casa de tamanho temor. O cheiro de veneno esta nas paredes. Os peixes se debatem pelos cômodos, no chão, sufocando. A cama não é utilizada há meses e está com a poeira de 23 verões. Não se faz necessário tocar a campainha, mas uma vez lá dentro… uma vez lá dentro e toda a luz se acaba. Se não puder evitar, se não tiver mais como suportar a luz, visite o obscuroSer.

Por favor, não fique tão chateada.
Você não quis ler as cartas e permanece
pedindo que eu te entregue a sorte.
Ora, se não posso ser sua propriedade
é melhor que se acabe antes de alguma desordem. 

Você me pergunta:
O que é isso?
Estou mantendo você fora do caminho.
Não posso esconder,
sou um risco.
Estou mantendo você fora de perigo.

Uma janela aberta.
Eu quero mais um gole dessa noite.
O que está acontecendo?
O que está acontecendo?
Veja a árvore e a morte. 
O que está acontecendo?
O que está acontecendo?
Desconversando,
Estou mantendo você fora do meu caminho.

E você me vem

com o sorriso mudo

e o olhar cheio de palavras

me dizer que será você

a próxima a me partir o coração.

Tudo estava perfeitamente normal até o ano de 2008, para Rodrigo T. O fim da faculdade e a origem de diversos planejamentos que haveriam de dar errado. Mas algo acontece quando vira o ano. Não algo físico, como a rotação da terra ou a distância entre o período de tempo marcado por um segundo (não até então). Mas um acontecimento de maior importância para T. ocorre em sua cabeça. Meio confuso com tanta confusão, pessoas gritando e circulando e um grupo começa a contagem regressiva para o ano acabar antes do outro que inicia logo depois a contagem e então o ano parece mudar em tempos diferentes e há quem diga em algum lugar do mundo que o ano já mudou alguma coisa parece que vai explodir o big bang se aproxima as pessoas estão gritando se agitam alguns se jogam na água outros se abraçam a música começa a praia se esconde atrás das pessoas e dos lixos e o ano já começa mal para a praia que não parece estar comemorando a virada e todos fazem votos, mas T. não viu nada, tudo está a mesma coisa. E todo ano T. se pergunta se é isso mesmo ou se aconteceu algo que ele deixou passar… se é só isso a virada de ano.

As luzes. Existem luzes em alguns lugares e um barulho extremo. A menina de vestido florido lhe passa diante dos olhos e lhe rouba a atenção. A menina de roupa azul cintila na noite, o rapaz de camisa laranja caminha de costas para T. A música grita no ouvido de T. A música grita no ouvido de T. As pessoas circulam e a música grita no ouvido de T. Corre, T. Corre.

Rodrigo T. vaga pela praia. A lua sorri. Mas T. não entende. Logo se aproxima de outro amontoado de pessoas. Onde começa um e acabam os outros. O amontoado é um corpo só e T. não quer perder seu corpo, sua forma para pertencer a algo disforme e bizarro. T. procura as cabeças para talvez encontrar um ouvido e uma boca com que possa conversar. Mas as bocas estão ocupadas demais e os ouvidos estão obstruídos pela música ruidosa. T. se desloca mais uma vez por se sentir deslocado.

Rodrigo T. caminha até chegar a um vilarejo. Logo no centro da vila está o portão do inferno. Pessoas se digladiam por um pequeno espaço enquanto um diabo lhes obriga a arremessar seus corpos de maneira sensual para matar sua sede ninfomaníaca. E cada vez que as pessoas se mexem conforme o mando do diabo, diabo se tornam. É preciso fugir. E T. atravessa o cardume de pessoas apressado para atingir a outra extremidade.

Sim. A calma. A calma jamais dura muito tempo para T. Alguém grita seu nome. Alguém conhecido. Mas trás nuvens nos olhos. E T. não consegue lhe dirigir a palavra. Dá as costas e sai deixando o alguém sozinho na rua, para entrar num caminho em meio a mata. Uma mata que comemora a virada. Uma mata que encontra forças perante a patologia que lhe atinge para de alguma maneira comemorar a passagem de ano. E Rodrigo T. nota que a mata tem algo guardado em si. Tem algo que só ela sabe. O morcego comemora a chegada de T., o homem de pedra toca seu piano para dar continuidade a festa, uma rocha se junta a eles para fazer companhia e a mata está enfeitada. É festa para T. agora. Nem o sol pode por fim a essa noite. Ao contrário, é convidado imprescindível e traz consigo uma noite mais iluminada na qual T. poderá dormir tranquilamente em sua barraca…

Dessa vez Rodrigo T. seguia à pé para o trabalho. Não era tão longe de sua casa e poderia chegar em tempo se fosse andando. A distância não exige paradas para descanso e logo ele chegaria. A cidade anunciava a repartição pública, a buzina dos carros desesperados para chegar e sair, o engarrafamento, os ônibus jorrando fumaça, os pedestres numa mistura heterogênea que parecia não ter dado muito certo se chocavam como prótons nas calçadas. A qualquer hora poderia ocorrer um Big Bang. E Rodrigo T. achava tudo aquilo tão semelhante ao seu trabalho. Para atravessar a rua foi necessário esperar o sinal, mas o sinal parecia estar esperando um sinal, o que deu tempo para T. buscar uma sombra e pensar em nada por um tempo. Pensar em nada sempre deu a T. um certo orgasmo, sentia-se ausente durante aqueles segundos, para depois voltar e atravessar a rua.

No trabalho, o mesmo de sempre. Às vezes parecia estar numa recicladora de papel. Seu objetivo: livrar-se de toda aquela papelada sobre a sua mesa até o final da manhã. Mas esse dia foi marcado por algo especial. T. resolveu empreitar uma aventura e descobrir o Primeiro Andar. Não sei se já falei sobre os seres que habitam este andar, são espécies maravilhosas mas sombrias, o vocabulário delas se limita a umas poucas palavras e os seres do primeiro andar têm a fantástica habilidade de se multiplicarem. Muito antes de T. sonhar em trabalhar lá, eles já haviam tomado todo o Segundo Andar e estavam prestes a tomar o prédio. Os mais ousados, que arriscavam falar sobre esses seres, afirmavam que era o poder da “grana”. T. ficava por horas imaginando o que seria esse tal poder da “grana”, mas jamais chegaria a conhecer, ao menos não neste trabalho. E o elevador se aproximava do número 1. “Atenção”- e uma sirene tocava – “Atenção, portas se abrindo”. Aquele alarme declarava a chegada ao Primeiro Andar. T. tinha muito medo do poderia vir a ocorrer, nunca se sentira tão nervoso. A porta estava aberta. A sua frente, um pequeno letreiro, não muito alarmante, dizia: Central de Negócios.

Era terrível. Que espécie de negócios estavam sendo tramados ali? Quais as coisas terríveis que eram negociadas ali? T. mal poderia compreender o que estava diante dos seus olhos, quando presenciou um momento raro. Duas representantes das espécies que habitavam aquele andar passaram por sua frente. Eram fantásticas. Nas faces, várias tonalidades de cores adornavam o rosto, o odor era inconfundivelmente doce, elas andavam sobre pilares altíssimos e por um instante Rodrigo T. teve que se esquivar para não ser pisado. Estava pasmo e seu coração acelerava. Numa mistura de fascínio e medo, T. se esgueirou até a porta que dava para as escadas onde pode respirar aliviado.

São umas oito e meia da manhã. Rodrigo T. para o carro no estacionamento abaixo de uma árvore mirradinha, com bem poucas folhas, mas que pode fornecer alguma sombra para o impiedoso sol de meio-dia. Bip – soa o alarme ao ser ativado e travar as portas. Ainda havia muitas vagas, estava cedo para qualquer trabalhador de uma repartição pública. O prédio imponente se ergue na frente de T. Os guardinhas vigiam. Circulam. Cumprimentam com a cabeça em um gesto de educação e constrangimento. As portas de vidro deixam prever o que estar por vir lá dentro. Na recepção, o silêncio não é bem recebido. Ou você fala alguma coisa ou você nem é visto. O senhor de pé, em frente ao balcão, busca uma informação que a mulher e o rapaz sentados em sua frente não conseguem escutar, pois a conversa sobre o programa da TV estava embalada de mais para parar e atender alguém. Mas T. só vê isso de relance, enquanto caminha em direção ao elevador, e mal se dá conta do que de fato acontece. Algum tempo diante do elevador. As portas… as setas… seta pra cima… seta pra baixo… fila para o elevador. As portas se abrem depois de um tempo do elevador ter chegado, parece um teste de paciência e T. se diverte em ver a fila se tornar um amontoado de pessoas mesmo antes das portas se abrirem. Dentro do elevador, alguém puxa uma conversa fiada. As pessoas do primeiro não conversam com as pessoas do terceiro, as quais não conversam com ninguém. As pessoas do primeiro não pegam o elevador. As pessoas do segundo… bem, T. nunca conheceu ninguém do segundo. As pessoas do terceiro… sim, as pessoas do terceiro. Acho que as pessoas do terceiro merecem um post próprio…

Durante a noite, as palavras ecoam em minha cabeça e me fazem transpirar. Não conseguirei esquecer essas palavras, essas páginas por um bom tempo. O papel em branco tem sido meu aliado. Enquanto o teclado escorrega pelos meus dedos eu escuto a sua voz, límpida, certa de cada palavra, mas repleta de uma fantasia que me transporta.

Enquanto eu mergulho em minha monografia minha boca sussurra o nome da cousa.