Archives for category: versos aversos inversos

Abriu a porta do salão onde estariam dando uma grande festa. As pessoas bem vestidas com suas peles de animais exóticos. Resolveu se esconder atrás de uma árvore, pois não queria que lhe vissem aí. Gostava, se divertia em observar em silêncio e comentar o ocorrido para si mesmo, em sua cabeça, ou mesmo narrar os fatos. Mas o bom mesmo era prever. Ontem havia previsto que estaria aqui e vejam só, ali estava. Já chegou a prever um fato do passado e se orgulhou em resultar que havia de fato ocorrido. “Mas isso é estranho” ele pensava “se eu espiono a todos deve haver alguém me espionando”. E o mato engrossava a cada vez que ele pensava e ficava mais difícil enxergar as pessoas em suas peles vistosas. Corria de uma árvore para outra se escondendo e buscando um ponto de vista melhor, mas a floresta ficava mais densa a cada segundo e parecia cantar em silêncio para ele a vibração de todo o universo. Ouvia aquela música e já andava sem se esconder, pois tudo o veria. “Você me faria o favor de cantar mais alto para mim?” “Não deixe o momento distrair-me, apenas cante.” Começou a subir nas árvores para ver de onde vinha a voz. Mas a voz vinha de baixo. Desesperado cavou um buraco bem fundo onde pudesse colocar as pernas e descansar um pouco. Enquanto os pés sugavam toda a água que havia emergido no buraco seus olhos pareciam fazer fotossíntese, nada lhe escapava a visão, estava atento a tudo. Como aquela luz que flutuava longe no alto e a escada que levava até ela. Mas os pés já estavam coçando a esta altura e também sofria de acrofobia, preferia não deixar as coisas chegarem a certa altura antes de tomar uma medida. Tomou então a medida. Parecia do tamanho de uns cinco universos, uma distância pequena de onde poderia saltar. Preparou, então, o salto. Dobrou as pernas, partiu para a queda. E o puseram para fora do salão.

Qual é o hormônio da tristeza?

Qual  é  a  minha  altura  e  o  meu peso?

Qual é a minha leveza?

Se eu desisto é uma palavra minha.

O medo não prolifera a raiva e eu não sou você. Vivo a doce conclusão do infinito. Eu gostaria de ter as palavras certas para usar, mas não consigo assimilar as questões mais simples, assim como não posso me distanciar do medo. Seus dedos escorregando pelas minhas costas, eu penso que sentir sua falta é a prova de nossa glória. Já não sou mais tão velho para escolher qualquer canção. São ou não são, nem se estão, vão e vão, ou vão em vão. Arrebenta a palavra contra a parede. Sei que repito. Sem um jeito mais simples, eu estou aqui e a muito tempo me esqueci de cativar a solidão. Às vezes nem parece que eu sou louco. Nem me sinto como tal, como o tal. Viviviviviviviviviviviviiiiiiiiiiiiiiiiiii. Por quanto a tristeza. Por seis mil. E se eu grito. Não surte efeito mesmo, eu não vou triunfar. E todo esse tempo a esperar. Eu sinto o seu carinho me levar. Estou seduzido. O quanto eu vivi, por quanto eu vivi. Com a boca aberta. A língua pra fora. A garganta inflamada. Mesmo que eu quis que eu quis e que quis quis que eu quis que eu eu quis. Mesmo lugar. Onde eu estou. E se me apetece me mudar. Pra onde eu vou. Como eu quis amar. Agora é um perigo. Eu cilada. Você ouviu. A enfermidade se aproximar e não me disse que entre mim e você não existe muita coisa, pois tudo é onda estacionada esperando para arrebentar, tudo é energia, tudo é uma questão de observar o mar. Agora eu respiro pra pensar. Só a destruição constrói. Só o inevitável é certeza. O resto são possibilidades. Tudo é possível, menos o inevitável. Estou certo disso. Invariável. Toda negação é certeza. Inquestionável. Imensurável. Inarrável. Inefável. Mesmo assim. Eu vou. Mesmo que desapareça eu vou, não . Os dedos escapam da caneta e da caneta escapa a canção. Ou melhor, os dedos escapam da caneta e da caneta escapa a emoção. Ou melhor, os dedos escapam da caneta, descem a escada para o estacionamento, roubam o carro e ganham o mundo sem fim. O deserto abissal. Diferente vontade, palavra igual. Posso me sentir. Se me toco com meus dedos posso me sentir. Então eu talvez exista mesmo. Não é só aquela sensação louca de quando acordo e parece que de fato existe um mundo ao meu redor e que tudo existe e que eu estava em um lugar onde nada existe e agora é um lugar diferente. Não. É mesmo real. Ou devia ser. Pois quando eu acordo tenho a honesta sensação de estar existindo. Depois vem o esvaziamento completo. Tudo é mais claro quando eu estou dormindo. Toda noite eu sonho em poder dormir. E aquele completo desajuste. Na hora errada no lugar errado. O azar. Ou um incrível sentimento, uma habilidade para o reconhecimento de uma boa maré de azar, e então um bom aproveitamento do vento e das condições do tempo. Tempestade o tempo todo. O tempo todo. A eternidade. O infinito. A certeza de estar errado. A negação. A forma de dentro. A fôrma de dentro não é a mesma fôrma utilizada para o acabamento externo. As palavras você não pendura na parede ou no teto. Você deixa elas na sala, ou rolarem escada a baixo, ou elas buzinam na porta, nem sempre você abre. Muitas vezes elas querem saltar. A janela. O décimo primeiro andar. Está em tudo que faço, está em tudo que beijo. Eu agora vejo que é impossível viver sem poesia.

Só o impossível é certeza, o resto são possibilidades.

Simular to a baptism - foto por Paul Schiek

Incommunicable
I can feel my whole sovereingty on me
I say you a word
You mumble.
Concave winds
discover the simple path of my metaphors
and coalesces in my chest its implicit presence
that for my idea smile without saying exactly the muted word
leaving the doubt of consent that i can`t abstract your wishes
in
wishes
mine.
Away from the road
remains that figure from nowhere to disapear in my feelings
while the wait for meet you transfer to me the anger and courage
to get what I always got,
like if your way was argue my road.
Passersby feelings
ensnare my awareness of myself in a parachute on fire
and call me once more to sprout wings in the infinite fall of thinking and feeling.
Awake
in a dream
that in reality
is motion.

foto por Nina Ahn

(sim, é para você… e o que mais eu posso fazer?)

Fico pensando no que você está fazendo agora.
Se está acordada.
Se está no banheiro
ou na sala.

No que você pensa quando se encara no espelho.
Se você quer saber o que eu penso.
Se você quer saber o que eu vejo quando me encaro no espelho.
Se eu te desejo quando não te tenho.
Se quando eu te vejo é sonho ou pesadelo.

A tv que deve estar ligada
num canal que não passa nada.
Sua razão pode estar alterada.
A janela deve estar fechada
porque faz frio.
Faz rio
porque chove muito lá fora.

Fico imaginando o que você está fazendo agora,
enquanto a eternidade me rouba o instante.
Espero paciente pela tristeza que se esconde.
Se ando algumas quadras talvez possa te ver de longe.
Espero paciente pela alegria de ontem.
Se volto a sonhar talvez te encontre.

pintura por Brendan Flanagan

Por que

eu ainda continuo

a me sentir

como

navalhas

cortando o ar?

see you - foto por Paul Schiek

(para Natalie)

Esta noite te vi flutuando por aí.
Estava longe, mas se aproximava de mim.
Nada me disse, mas tive a impressão de ouvir.
Ficou alegre em me ver e se pôs a sorrir.
Eu não sabia se eu estava te vendo
ou se fui eu que para você apareci.

Esta noite te vi flutuando por aí.
Não me arrependo,
embora muito soubesse
que talvez estivesse
somente dentro de mim.

Talvez meus olhos estivessem brilhando
como `as vezes me acontece
e meu corpo adormece
e minha respiração já não obedece
e o coração padece.

Talvez fosse mesmo você flutuando
como `as vezes te despertas
e teu corpo se completa
e tua respiração acelera
e tua alma te eleva
pois já não toca o chão.

Esta noite eu estava flutuando
quando fui dormir.

(para Natalie)

Não faz a menor diferença se estou aqui.
Nem te importa se chega o momento de sair.
Borboletas negras
voando na noite.
Não fazem a menor resistência.
Paredes ocas.
Um giro no escuro.
Não é uma coincidência.
Eu olhando pra você.
O meu sorriso mudo.

(extraído do caderno para poesias que Pardal me presenteou mais ou menos assim)

(para Natalie)


Não sei porque

ao seu lado já não consigo dizer uma palavra.

                      Como se eu fosse mudo

         volto para casa e escrevo poemas absurdos.

Eu atravesso a frontera
eu atravesso a rua 85
o centro
sentimentos extintos

Eu cruzo informações
eu cruzo a mata
o rio
a madrugada

Eu ando sorrindo
e sentindo vergonha
pois sei que você anda lendo
as minhas poesías

Eu corto o desespero
desejos
eu corto o terceiro mundo
os medos
o escuro

Eu ando sorrindo
e sentindo vergonha
pois sei que você anda lendo
as minhas poesías

E já que você
deve estar lendo esta
beijos.

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