A realidade é o playground da vida.
Se não eram umas sete, eram umas oito, oito e meia. Rodrigo T. chega risonho à festa no casarão. Luzes, vozes, música. Uma bandinha de fanfarra já estava animada enquanto o noivo dançava alegremente, rodeado por criancinhas e amigos que se sacudiam no rítmo da música. – Você me consegue uma cerveja, por favor? E em meia hora Rodrigo T. já era amigo do garçom, já brindavam e riam juntos, – Sabe esse negoço de se casar é uma onda bonita da porra, né não? Rodrigo T. fazia pausas repentinas, olhava para os lados e procurava um ponto de equilíbrio. Aquela amizade com o garçom tinha lhe rendido uma baita tontura. Um cigarro. Sim, um cigarro e não um cigarro qualquer, um cigarro de palha. Sim, um cigarro de palha viria bem a calhar.
- É esse negoço, rapaz … – uma pausa – esse negoço… – outra pausa, mas essa por conta da loira que passava e olhava nos olhos de Rodrigo T. – mas que coisa rapaz… sim, esse negoço das pessoas serem pouco contemplativas, de não se relacionarem diretamente com a natureza dos fatos, mas com a ciência religiosa que constrói em torno deles uma espécie de áurea intocável, quase um campo de força, é que deixa as pessoas tapadas, meio abobalhadas, sabe? Rodrigo T. conversava com um amigo que devorava com entusiasmo um delicioso espetinho de camarão. As mulheres desfilavam para eles e, vez ou outra, a conversa perdia o rumo e se distanciava do plano imaginário para se concentrar na carne das meninas.
Não demorou muito para T. começar a perambular pela festa, meio ébrio, mas ainda de pé. O noivo chega para falar com ele. Já haviam se cumprimentado na chegada, mas agora estavam ambos chapados. Rodrigo T. jamais lembraria daquela conversa. Do que foi dito, ao menos, T. não lembraria nada. – Porra meu velho… – o noivo responderia sacudindo a cabeça freneticamente – hurru… hehehehe – T. responde – hahaha, né? – sentindo-se animado com a conversa o noivo continua – porraaa, hehehehe – T. não sabe se entendeu ou não, olha pro lado, se distrai, a conversa perde o significado, o noivo pende para um lado, depois para o outro, olha mais um a vez para seu interlocutor até se entediar do silêncio e ir buscar conversa com alguém mais interessante.
T. se distancia um pouco da casa e percorre o jardim até um ponto onde existe um aglomerado de pessoas. Olha para elas. Diz algo que seria impossível lembrar mesmo se tivesse entendido o que havia dito. Conversam sobre uma banda. Rodrigo T. afirma com convicção que a banda é muito boa, até descobrir que faz parte dela. O grupo começa a se disperçar, T. sente uma tontura, senta no gramado, logo abaixo de uma árvore velha e imponente, repousa o copo de Whisky ao lado e deita, profundamente sozinho dentro de si. Aos poucos T. se torna parte do chão, as formigas passeiam por ele e mesmo um grupo de festeiros errantes repousa ao seu lado para uma conversa e um pique-nique noturno, regado aos famosos espetinhos de camarão e muito whisky. Mas T. permanece alí, imerso no nada, como antes da criação do planeta, no escuro, sem respostas nem perguntas.