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T. entra pela porta de seu quarto esbaforido. A entrevista será em meia hora a uma hora de sua casa. Sua melhor camisa. Sua melhor calça. Seu melhor sapato. Seu melhor sorriso. O ônibus não espera quem não está eperando pelo ônibus, então T. se apressa e desce a ladeira de seu apartamento voando. A chuva lhe provoca as primeiras sensações de pessimismo. Essa chuva tem trazido pessimismos a todos em Salvador nos últimos tempos. No ponto de ônibus as cascas das pessoas estão a esperar por sua vez. Parecem grilos que acabaram de se trocar e você poderia pegá-los com a mão, somente casca. Não é esse o ônibus, talvez o próximo . Ainda não. T. se abriga da chuva e espera angustiado. Já é hora de estar lá. Não mais que de repente um cardume de pessoas se move em direção a sua condução e some para sempre. T. sobe no ônibus seguinte para entrar em uma viagem por sua mente. Ele vê as cascas pela rua e o ônibus caminha na velocidade de seu pensamento, atravessando a cidade. Ninguém está ao lado dele. Por favor, me atirem.
T. chega em casa como um avião atinge o mar depois de enfrentar a força de dez furacões. Explodindo. Ele fecha a porta de seu quarto e saca do armário a mochila que o espera. Colocando-a ao chão em frente a ele, encara sua sina. Respira fundo. Estaria pronto. Está pronto. Pronto, resolve esperar e pode descançar. Mas T. sumiu. T. conseguiu o emprego. Nos próximos dias poderá trabalhar como vendedor. Preferia que fosse assim. Por favor, me atirem.
Tudo estava perfeitamente normal até o ano de 2008, para Rodrigo T. O fim da faculdade e a origem de diversos planejamentos que haveriam de dar errado. Mas algo acontece quando vira o ano. Não algo físico, como a rotação da terra ou a distância entre o período de tempo marcado por um segundo (não até então). Mas um acontecimento de maior importância para T. ocorre em sua cabeça. Meio confuso com tanta confusão, pessoas gritando e circulando e um grupo começa a contagem regressiva para o ano acabar antes do outro que inicia logo depois a contagem e então o ano parece mudar em tempos diferentes e há quem diga em algum lugar do mundo que o ano já mudou alguma coisa parece que vai explodir o big bang se aproxima as pessoas estão gritando se agitam alguns se jogam na água outros se abraçam a música começa a praia se esconde atrás das pessoas e dos lixos e o ano já começa mal para a praia que não parece estar comemorando a virada e todos fazem votos, mas T. não viu nada, tudo está a mesma coisa. E todo ano T. se pergunta se é isso mesmo ou se aconteceu algo que ele deixou passar… se é só isso a virada de ano.
As luzes. Existem luzes em alguns lugares e um barulho extremo. A menina de vestido florido lhe passa diante dos olhos e lhe rouba a atenção. A menina de roupa azul cintila na noite, o rapaz de camisa laranja caminha de costas para T. A música grita no ouvido de T. A música grita no ouvido de T. As pessoas circulam e a música grita no ouvido de T. Corre, T. Corre.
Rodrigo T. vaga pela praia. A lua sorri. Mas T. não entende. Logo se aproxima de outro amontoado de pessoas. Onde começa um e acabam os outros. O amontoado é um corpo só e T. não quer perder seu corpo, sua forma para pertencer a algo disforme e bizarro. T. procura as cabeças para talvez encontrar um ouvido e uma boca com que possa conversar. Mas as bocas estão ocupadas demais e os ouvidos estão obstruídos pela música ruidosa. T. se desloca mais uma vez por se sentir deslocado.
Rodrigo T. caminha até chegar a um vilarejo. Logo no centro da vila está o portão do inferno. Pessoas se digladiam por um pequeno espaço enquanto um diabo lhes obriga a arremessar seus corpos de maneira sensual para matar sua sede ninfomaníaca. E cada vez que as pessoas se mexem conforme o mando do diabo, diabo se tornam. É preciso fugir. E T. atravessa o cardume de pessoas apressado para atingir a outra extremidade.
Sim. A calma. A calma jamais dura muito tempo para T. Alguém grita seu nome. Alguém conhecido. Mas trás nuvens nos olhos. E T. não consegue lhe dirigir a palavra. Dá as costas e sai deixando o alguém sozinho na rua, para entrar num caminho em meio a mata. Uma mata que comemora a virada. Uma mata que encontra forças perante a patologia que lhe atinge para de alguma maneira comemorar a passagem de ano. E Rodrigo T. nota que a mata tem algo guardado em si. Tem algo que só ela sabe. O morcego comemora a chegada de T., o homem de pedra toca seu piano para dar continuidade a festa, uma rocha se junta a eles para fazer companhia e a mata está enfeitada. É festa para T. agora. Nem o sol pode por fim a essa noite. Ao contrário, é convidado imprescindível e traz consigo uma noite mais iluminada na qual T. poderá dormir tranquilamente em sua barraca…
Dessa vez Rodrigo T. seguia à pé para o trabalho. Não era tão longe de sua casa e poderia chegar em tempo se fosse andando. A distância não exige paradas para descanso e logo ele chegaria. A cidade anunciava a repartição pública, a buzina dos carros desesperados para chegar e sair, o engarrafamento, os ônibus jorrando fumaça, os pedestres numa mistura heterogênea que parecia não ter dado muito certo se chocavam como prótons nas calçadas. A qualquer hora poderia ocorrer um Big Bang. E Rodrigo T. achava tudo aquilo tão semelhante ao seu trabalho. Para atravessar a rua foi necessário esperar o sinal, mas o sinal parecia estar esperando um sinal, o que deu tempo para T. buscar uma sombra e pensar em nada por um tempo. Pensar em nada sempre deu a T. um certo orgasmo, sentia-se ausente durante aqueles segundos, para depois voltar e atravessar a rua.
No trabalho, o mesmo de sempre. Às vezes parecia estar numa recicladora de papel. Seu objetivo: livrar-se de toda aquela papelada sobre a sua mesa até o final da manhã. Mas esse dia foi marcado por algo especial. T. resolveu empreitar uma aventura e descobrir o Primeiro Andar. Não sei se já falei sobre os seres que habitam este andar, são espécies maravilhosas mas sombrias, o vocabulário delas se limita a umas poucas palavras e os seres do primeiro andar têm a fantástica habilidade de se multiplicarem. Muito antes de T. sonhar em trabalhar lá, eles já haviam tomado todo o Segundo Andar e estavam prestes a tomar o prédio. Os mais ousados, que arriscavam falar sobre esses seres, afirmavam que era o poder da “grana”. T. ficava por horas imaginando o que seria esse tal poder da “grana”, mas jamais chegaria a conhecer, ao menos não neste trabalho. E o elevador se aproximava do número 1. “Atenção”- e uma sirene tocava – “Atenção, portas se abrindo”. Aquele alarme declarava a chegada ao Primeiro Andar. T. tinha muito medo do poderia vir a ocorrer, nunca se sentira tão nervoso. A porta estava aberta. A sua frente, um pequeno letreiro, não muito alarmante, dizia: Central de Negócios.
Era terrível. Que espécie de negócios estavam sendo tramados ali? Quais as coisas terríveis que eram negociadas ali? T. mal poderia compreender o que estava diante dos seus olhos, quando presenciou um momento raro. Duas representantes das espécies que habitavam aquele andar passaram por sua frente. Eram fantásticas. Nas faces, várias tonalidades de cores adornavam o rosto, o odor era inconfundivelmente doce, elas andavam sobre pilares altíssimos e por um instante Rodrigo T. teve que se esquivar para não ser pisado. Estava pasmo e seu coração acelerava. Numa mistura de fascínio e medo, T. se esgueirou até a porta que dava para as escadas onde pode respirar aliviado.

São umas oito e meia da manhã. Rodrigo T. para o carro no estacionamento abaixo de uma árvore mirradinha, com bem poucas folhas, mas que pode fornecer alguma sombra para o impiedoso sol de meio-dia. Bip – soa o alarme ao ser ativado e travar as portas. Ainda havia muitas vagas, estava cedo para qualquer trabalhador de uma repartição pública. O prédio imponente se ergue na frente de T. Os guardinhas vigiam. Circulam. Cumprimentam com a cabeça em um gesto de educação e constrangimento. As portas de vidro deixam prever o que estar por vir lá dentro. Na recepção, o silêncio não é bem recebido. Ou você fala alguma coisa ou você nem é visto. O senhor de pé, em frente ao balcão, busca uma informação que a mulher e o rapaz sentados em sua frente não conseguem escutar, pois a conversa sobre o programa da TV estava embalada de mais para parar e atender alguém. Mas T. só vê isso de relance, enquanto caminha em direção ao elevador, e mal se dá conta do que de fato acontece. Algum tempo diante do elevador. As portas… as setas… seta pra cima… seta pra baixo… fila para o elevador. As portas se abrem depois de um tempo do elevador ter chegado, parece um teste de paciência e T. se diverte em ver a fila se tornar um amontoado de pessoas mesmo antes das portas se abrirem. Dentro do elevador, alguém puxa uma conversa fiada. As pessoas do primeiro não conversam com as pessoas do terceiro, as quais não conversam com ninguém. As pessoas do primeiro não pegam o elevador. As pessoas do segundo… bem, T. nunca conheceu ninguém do segundo. As pessoas do terceiro… sim, as pessoas do terceiro. Acho que as pessoas do terceiro merecem um post próprio…

Durante a noite, as palavras ecoam em minha cabeça e me fazem transpirar. Não conseguirei esquecer essas palavras, essas páginas por um bom tempo. O papel em branco tem sido meu aliado. Enquanto o teclado escorrega pelos meus dedos eu escuto a sua voz, límpida, certa de cada palavra, mas repleta de uma fantasia que me transporta.
Enquanto eu mergulho em minha monografia minha boca sussurra o nome da cousa.
A realidade é o playground da vida.
Se não eram umas sete, eram umas oito, oito e meia. Rodrigo T. chega risonho à festa no casarão. Luzes, vozes, música. Uma bandinha de fanfarra já estava animada enquanto o noivo dançava alegremente, rodeado por criancinhas e amigos que se sacudiam no rítmo da música. – Você me consegue uma cerveja, por favor? E em meia hora Rodrigo T. já era amigo do garçom, já brindavam e riam juntos, – Sabe esse negoço de se casar é uma onda bonita da porra, né não? Rodrigo T. fazia pausas repentinas, olhava para os lados e procurava um ponto de equilíbrio. Aquela amizade com o garçom tinha lhe rendido uma baita tontura. Um cigarro. Sim, um cigarro e não um cigarro qualquer, um cigarro de palha. Sim, um cigarro de palha viria bem a calhar.
- É esse negoço, rapaz … – uma pausa – esse negoço… – outra pausa, mas essa por conta da loira que passava e olhava nos olhos de Rodrigo T. – mas que coisa rapaz… sim, esse negoço das pessoas serem pouco contemplativas, de não se relacionarem diretamente com a natureza dos fatos, mas com a ciência religiosa que constrói em torno deles uma espécie de áurea intocável, quase um campo de força, é que deixa as pessoas tapadas, meio abobalhadas, sabe? Rodrigo T. conversava com um amigo que devorava com entusiasmo um delicioso espetinho de camarão. As mulheres desfilavam para eles e, vez ou outra, a conversa perdia o rumo e se distanciava do plano imaginário para se concentrar na carne das meninas.
Não demorou muito para T. começar a perambular pela festa, meio ébrio, mas ainda de pé. O noivo chega para falar com ele. Já haviam se cumprimentado na chegada, mas agora estavam ambos chapados. Rodrigo T. jamais lembraria daquela conversa. Do que foi dito, ao menos, T. não lembraria nada. – Porra meu velho… – o noivo responderia sacudindo a cabeça freneticamente – hurru… hehehehe – T. responde – hahaha, né? – sentindo-se animado com a conversa o noivo continua – porraaa, hehehehe – T. não sabe se entendeu ou não, olha pro lado, se distrai, a conversa perde o significado, o noivo pende para um lado, depois para o outro, olha mais um a vez para seu interlocutor até se entediar do silêncio e ir buscar conversa com alguém mais interessante.
T. se distancia um pouco da casa e percorre o jardim até um ponto onde existe um aglomerado de pessoas. Olha para elas. Diz algo que seria impossível lembrar mesmo se tivesse entendido o que havia dito. Conversam sobre uma banda. Rodrigo T. afirma com convicção que a banda é muito boa, até descobrir que faz parte dela. O grupo começa a se disperçar, T. sente uma tontura, senta no gramado, logo abaixo de uma árvore velha e imponente, repousa o copo de Whisky ao lado e deita, profundamente sozinho dentro de si. Aos poucos T. se torna parte do chão, as formigas passeiam por ele e mesmo um grupo de festeiros errantes repousa ao seu lado para uma conversa e um pique-nique noturno, regado aos famosos espetinhos de camarão e muito whisky. Mas T. permanece alí, imerso no nada, como antes da criação do planeta, no escuro, sem respostas nem perguntas.
“A realidade não pode ser nada mais que um texto, uma construção simbólica que é, ela mesma, referente a outros textos – não a história ou à estrutura social – de modo arbitrário” (Alexander Wendt, 1995: 103)
Após uma dedicada observação dos blogs em geral, reconheci que estes são as mais novas, as mais modernas revistas de fofocas pessoais. Cada qual faz sua fofoca sobre o que está rolando em sua vida e se torna um entidade pública. Os blogs têm sido, cada vez mais, a projeção do pessoalismo para a mundialização globalizada. Nós, invisíveis ao olho nú, buscamos a margem adequada para nossas idéias e tentamos angariar aliados através do blog. Como diria Michel Melamed, eu poderia estar matando, roubando, mas estou aqui escrevendo um blog. O imperativo da palavra traz a emoção de ter pessoas visualizando as suas idéias e as digerindo, comentando, concordando, descordando e aceitando. Porém, sou mal acostumado à arte. Jamais poderei fazer relatos sinceros sem que por eles passem a aquarela artística. Um professor meu me disse certa vez – e me disse olho no olho, naquela linguagem ultrapassada em que duas pessoas se encontram e conversam – que, ao passo que a filosofia busca entender a natureza e a ciência busca explicá-la, a arte é a única coisa que toca a natureza.
Gosto de tocar a natureza para poder senti-la. Gosto da busca por entendê-la, mas, em meio a essa busca, eu me atrapalho e tropeço e me misturo a natureza. Desse modo estarei estreando, em breve, a categoria “quero ser Rodrigo Torres Almeida”, com vínculos criativos com o filme – Malkovich Malkovich Malkovich.
Essa categoria será um toque na minha natureza. Na minha natureza humana, urbana e selvagem. Como se eu fosse títere de mim mesmo, guiarei por cordas invisíveis as minhas ações, já posso até me sentir controlado, com cortes na boca que me fazem falar a fala que não é minha mas se torna, andando desengonçado e com os braços pendurados ao vento. É início de uma vontade repentina de eu mesmo me tornar eu mesmo. Quero ser Rodrigo Torres Almeida.
