Archives for category: Noturna

Na rua se amontoava um grupo cada vez maior. Todos na porta a espreitar o que tinha acontecido, mas de fora o máximo que se podia ver eram as costas sombrias dos homens altos quando a pequena garota atravessou a barreira para dentro da casa deixando com que uma flecha de luz disparasse para fora. Só uma velha lamparina iluminava o aposento principal, onde o doente estava recostado. O sofá não parecia muito confortável, mas o travesseiro abaixo de sua cabeça e outro nos seus pés deixavam o enfermo o mais cômodo possível. A menina retirou o pano que cobria a cabeça e ajoelho-se próximo ao corpo para rezar. O fogo da lamparina oscilava e mudava as expressões nos rostos dos presentes entre pesar e esperança. Uma mulher sai de um canto escuro e com uma palavra de ordem a garota se ergue em um salto. O doente, já com os olhos abertos, toma as mãos das duas e, somente para ele, o quarto vai parecendo cada vez mais escuro até se apagar em uma escuridão mórbida.

Estava chovendo forte, o céu ameaçava relâmpagos, mas com a claridade do dia ainda não se podia ver se de fato estava relampejando… Toma isso, oh, e põe ali para escorrer… Saímos no meio da tempestade (dá pra imaginar?) e corremos aí umas cinco quadras, você não imagina, mas chegamos ensopados, mas tão ensopados que… me passa isso aí… não, isso aí na sua frente, aí, com a mão direita… chegamos tão ensopados que mal conseguíamos respirar e um senhor chegou da rua de baixo nos oferecendo umas máscaras de oxigênio que tinha para vender. Ele olhou no bolso e não tinha um centavo, eu tinha umas moedas no bolso para o  ônibus que não davam pra comprar… tá escutando? (Olha, isso você segura assim, com as duas mãos e firme, que é para não cair…) Então deu nele de voltar para pegar o dinheiro, a final de contas precisávamos respirar… não, segura assim… e subimos toda a ladeira de volta naquele calor, com o sol forte que faz nessa época do ano, subimos duas quadras depois `a direita para tornar a virar a esquerda. Aí tem um pátio enorme que se você continuar subindo chega nessa cachoeira que fomos, tomamos banho e saímos correndo a caçar borboletas. As borboletas se escondem quando vêem animais que não são plantas, que não têm flores e aquelas raízes para roubar da terra (toma, pega isso, agora daquela forma que te falei… não… isso…) roubar sais e minerais, mas sempre que fazem isso, uma vez mortas, lhes toca devolver, pegamos o dinheiro que precisávamos e fomos comprar as máscaras de oxigênio. Quando chegamos já me faltava ar, tive que respirar bem fundo para voltar a ver borboletas.

foto por Kim Koster

Hoje, aqui,
chove muito para mim.

Hoje, aqui,
eu penso em você e em mim.
Talvez seja um jogo,
hoje eu não consigo dormir.
Tenho os meus motivos.
Hoje, aqui,
a verdade vem aos poucos
para mim.
E por quanto tempo
eu vou poder ver você
quando você não está?
Hoje, aqui,
eu guardo meus esforços
para sorrir.
Por que você já vai?
Por que você já vai?

Amanheço noturno.

Esqueço!

Caminho por entre linhas que jamais poderia suspeitar. Me renovo em um canto de vento que sopra as janelas e sinto um odor indecifrável que me é anfitrião. A cara suada. Desapareço e me vêm dizer coisas confusas sobre a qual não quero fala. Enrolam suas línguas e misturam suas falas. Ecoam. A cara suada.

É um golpe sujo, devo adimitir, se surpreender assim com tudo. É um golpe sujo. Mesmo se não se olha com esses olhos, porque ela me disse que tudo continuaria desse jeito por ela, mas me ocorrem vezes de mudar. Sem muito comprometimento mesmo, uma coisa mais espontânea, um susto. Mas ela me obriga sempre a dizer que sim, eu irei. E fui.

A cara suada.

É sempre essa maior besteira, uma perda de tempo: eu fico sentado e, sem me mover muito, lá vem ela trazendo. Acontece sempre. E eu posso marcar as horas, contar nos dedos e nada. É toda vez numa hora diferente.

A cara suada.

Tenso. Estico as mãos e giro umas duas ou três vezes, atéeeee ficar meio bobo. Parece nóia, mas ouvi dizer - e não se ouve muita coisa assim - que eles vão tentar novamente. O quanto antes! Pode esperar, pode até levar dias mas, assim que você começa com aquele negoço, lá vem tudo de novo.

A cara suada.

Anoiteço.

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