
sonhar é destino
“A viagem não pede explicações, apenas passageiros.” (Waking Life)
Algumas pessoas perguntam por que toda essa ruptura para ser feliz. A princípio, não se trata de uma ruptura, a muito tempo venho desatando os nós e me sinto desamarrado agora. Agora posso me mover com liberdade. Tentei de diversas formas tranquilizar meu espírito aqui, mas são inúmeras as coisas que intencionalmente lhe retiram do encontro com seu espírito, que lhe induzem ao estado de um “andróide paranóico”. É que não importa o que você faça ou para onde você vai, “por que te admiras de que em nada as viagens te beneficiem quando te levas contigo? Vai atrás de ti a mesma causa que te faz fugir” (Sócrates). Preparo, então, uma cilada para mim mesmo, um encontro do qual não poderei fugir. E quando avistar toda a natureza saberei, e quando encontrar com todas as pessoas saberei, e quando, à noite, encontrar com o infinito saberei, esse sou eu vivendo e agora não tenho como fugir de mim e vou preparar o rio para que meu espírito corra tranquilo. Livre.
Vocês me aconselham a não buscar o exílio. Jamais conseguiriam realizar me ver em outras circunstâncias, mas ainda assim não compreendem o exílio. Não podem entender como um sujeito se atira contra o perigo imponderável a fim de nele castigar-se em arames-farpados como franciscanos penitentes. Me dizem sempre ”o homem busca somente o prazer em todas as coisas, mesmo as que lhe doem, pois a dor é comprovada biologicamente como fonte de prazer” e ainda assim questionam minha sanidade nesta empreitada que estou prestes a realizar. E eu que discordo dessa natureza humana em perpétua busca pelo prazer posso sentir desde já o deleite que esta akrasia pode me conceder.
“Eu me refugiei e fechei as portas para ser útil a mais gente” (Sêneca). É assim que pretendo viver por agora. Tem sido para mim uma incoerência tamanha seguir vivendo sem um sentido maior que minha própria vida. A vida não me parece algo que se encerra em um indivíduo, ela tem a força de toda a existência, de toda a natureza. Assim sendo, não me conforta viver o que seria para mim a vida pela metade. Busco viver toda ela, em toda a sua força que minha mente humana pode permitir. Isto é a filosofia.
Sempre reinou em meus sentimentos uma magia dos acontecimentos, de como eles se reúnem em um único sopro de vida. De como todas as coisas parecem ser ligadas a uma vontade. Desejo tocar essa vontade, senti-la como sinto o vento frio que agora cruza meu quarto e me arranha o peito. Presenciá-la como se toda a natureza fosse Eu em expansão. Um só. Unidos pela mesma vontade. Isto é arte.