You are currently browsing the category archive for the 'Maturidade' category.

“É primavera dos mortos em meu coração”.

O peso daquelas palavras o deixou estancado no meio da calçada. Era de fato a primavera dos mortos em seu coração e a comprovação imediata disso o levou a um susto que mesmo o último poste, com quem parou para jogar conversa fora um pouco, e tinha a garantia de que essa era a melhor forma de fazê-lo, encontrou-se pálido e estático. Seus olhos fitavam o infinito como se o infinito estivesse em sua frente. Pensava que poderia sim levar aquilo adiante e, mesmo que não lhe proporcionasse toda a forma, seria válido, era simples, havia se acostumado já com o jeito que encontrara de levar a vida e já até sentia às vezes que estava sendo levado. Era um hábito seu parar em frente aos postes, contar o seu número e conversar um pouco. Nunca chegou a trabalhar com aquela galera que sobe nos postes, achava até uma falta de respeito, como pode isso assim, que coisa sem nexo, perde todo o sentido, são postes porra, e se sentia extremamente magoado com aquela cituação embaraçosa. Pelo que se lembrava nunca chegou mesmo a trabalhar, nem se lembra muito bem da sua família. Era sabido seu que a coisa mais estranha que já vira era aquilo das mesmas pessoas se encontrarem todos os dias. Mas não gastava seu tempo com esses pensamentos e eles nem se quer chamavam a sua atenção.

“É o mais doce e primaveril momento da minha morte”.

Havia parado de chamar a vida de vida. Para ele o fato era simples: estava morrendo a cada dia e cada momento seu era um momento de sua morte.

“Sete quatro dois dez dois dez cinco.” Ronronava, respirava forte. “Sei que já não pode fazer isso, continuar assim, mas fazer o que?” e um extremo vazio se abria na sua mente. Um longo e absoluto vazio .

Nunca fez parte de um plano seu levar a vida assim. Nunca fizera muitos planos nem rompera com muitos ideais. Permanecera daquele jeito porque sempre fora assim. Era óbvio que lhe custaria muito qualquer mudança. E mesmo permanecer já era bastante custoso para o que pretendia gastar com a vida. Simplesmente foi se acostumando ao fato de prosseguir estático. Não havia de nada produtivo em sua vida se não ela mesma, porque isso é arriscado condenar a absurda incompetência. Por sinal, nesse fator até se arriscaria dizer que foi de extremo sucesso. Estava vivo até então. E bem vivo. Tinha as canelas meio secas e escuras, com manchas de micoses. Era a primeira coisa que se identificava no sujeito, com aquele chorte de uma cor camuflada com uma sujeira grosseira. Por sinal, era moda na época. E vivia por aí. Altamente ocupado em fazer nada . E nada poderia desvia-lo da prossecução de sua tarefa. Estava fadado ao acaso.

E mal já era primavera.