Archives for category: Maturidade

Ele caminha sozinho. Já faz alguns dias que está longe de casa. Ele se sente confuso e o vento frio em contato com o seu corpo o faz relembrar toda a dor que sente e o quanto esta dor tem sido seu motor. O quanto a fraqueza é sua companheira e agora toma seu corpo magro como se fizesse dele alimento. Sim, ele está fraco e sem inspiração, cansado por ainda não entender a vida e sua direção. Poderia mesmo supor que está morto por dentro, se não fosse prova de vida a imensa dor que sente. Se arrasta pelo chão com os olhos fundos, cansados, tonto. Só tem um pensamento. Mas vai ficar um tempo, mesmo sabendo que seria melhor ir. Vai ter que suportar a dor por mais tempo, prender a respiração, ver sangrar a ferida e talvez, pela primeira vez, tentar se curar. Ele está ficando, na hora de ir.

sonhar é destino

“A viagem não pede explicações, apenas passageiros.” (Waking Life)

Algumas pessoas perguntam por que toda essa ruptura para ser feliz. A princípio, não se trata de uma ruptura, a muito tempo venho desatando os nós e me sinto desamarrado agora. Agora posso me mover com liberdade. Tentei de diversas formas tranquilizar meu espírito aqui, mas são inúmeras as coisas que intencionalmente lhe retiram do encontro com seu espírito, que lhe induzem ao estado de um “andróide paranóico”. É que não importa o que você faça ou para onde você vai, “por que te admiras de que em nada as viagens te beneficiem quando te levas contigo? Vai atrás de ti a mesma causa que te faz fugir” (Sócrates). Preparo, então, uma cilada para mim mesmo, um encontro do qual não poderei fugir. E quando avistar toda a natureza saberei, e quando encontrar com todas as pessoas saberei, e quando, à noite, encontrar com o infinito saberei, esse sou eu vivendo e agora não tenho como fugir de mim e vou preparar o rio para que meu espírito corra tranquilo. Livre.

Vocês me aconselham a não buscar o exílio. Jamais conseguiriam realizar me ver em outras circunstâncias, mas ainda assim não compreendem o exílio. Não podem entender como um sujeito se atira contra o perigo imponderável a fim de nele castigar-se em arames-farpados como franciscanos penitentes. Me dizem sempre  ”o homem busca somente o prazer em todas as coisas, mesmo as que lhe doem, pois a dor é comprovada biologicamente como fonte de prazer” e ainda assim questionam minha sanidade nesta empreitada que estou prestes a realizar. E eu que discordo dessa natureza humana em perpétua busca pelo prazer posso sentir desde já o deleite que esta akrasia pode me conceder.

“Eu me refugiei e fechei as portas para ser útil a mais gente” (Sêneca). É assim que pretendo viver por agora. Tem sido para mim uma incoerência tamanha seguir vivendo sem um sentido maior que minha própria vida. A vida não me parece algo que se encerra em um indivíduo, ela tem a força de toda a existência, de toda a natureza. Assim sendo, não me conforta viver o que seria para mim a vida pela metade. Busco viver toda ela, em toda a sua força que minha mente humana pode permitir. Isto é a filosofia.

Sempre reinou em meus sentimentos uma magia dos acontecimentos, de como eles se reúnem em um único sopro de vida. De como todas as coisas parecem ser ligadas a uma vontade. Desejo tocar essa vontade, senti-la como sinto o vento frio que agora cruza meu quarto e me arranha o peito. Presenciá-la como se toda a natureza fosse Eu em expansão. Um só. Unidos pela mesma vontade. Isto é arte.

“É primavera dos mortos em meu coração”.

O peso daquelas palavras o deixou estancado no meio da calçada. Era de fato a primavera dos mortos em seu coração e a comprovação imediata disso o levou a um susto que mesmo o último poste, com quem parou para jogar conversa fora um pouco, e tinha a garantia de que essa era a melhor forma de fazê-lo, encontrou-se pálido e estático. Seus olhos fitavam o infinito como se o infinito estivesse em sua frente. Pensava que poderia sim levar aquilo adiante e, mesmo que não lhe proporcionasse toda a forma, seria válido, era simples, havia se acostumado já com o jeito que encontrara de levar a vida e já até sentia às vezes que estava sendo levado. Era um hábito seu parar em frente aos postes, contar o seu número e conversar um pouco. Nunca chegou a trabalhar com aquela galera que sobe nos postes, achava até uma falta de respeito, como pode isso assim, que coisa sem nexo, perde todo o sentido, são postes porra, e se sentia extremamente magoado com aquela cituação embaraçosa. Pelo que se lembrava nunca chegou mesmo a trabalhar, nem se lembra muito bem da sua família. Era sabido seu que a coisa mais estranha que já vira era aquilo das mesmas pessoas se encontrarem todos os dias. Mas não gastava seu tempo com esses pensamentos e eles nem se quer chamavam a sua atenção.

“É o mais doce e primaveril momento da minha morte”.

Havia parado de chamar a vida de vida. Para ele o fato era simples: estava morrendo a cada dia e cada momento seu era um momento de sua morte.

“Sete quatro dois dez dois dez cinco.” Ronronava, respirava forte. “Sei que já não pode fazer isso, continuar assim, mas fazer o que?” e um extremo vazio se abria na sua mente. Um longo e absoluto vazio .

Nunca fez parte de um plano seu levar a vida assim. Nunca fizera muitos planos nem rompera com muitos ideais. Permanecera daquele jeito porque sempre fora assim. Era óbvio que lhe custaria muito qualquer mudança. E mesmo permanecer já era bastante custoso para o que pretendia gastar com a vida. Simplesmente foi se acostumando ao fato de prosseguir estático. Não havia de nada produtivo em sua vida se não ela mesma, porque isso é arriscado condenar a absurda incompetência. Por sinal, nesse fator até se arriscaria dizer que foi de extremo sucesso. Estava vivo até então. E bem vivo. Tinha as canelas meio secas e escuras, com manchas de micoses. Era a primeira coisa que se identificava no sujeito, com aquele chorte de uma cor camuflada com uma sujeira grosseira. Por sinal, era moda na época. E vivia por aí. Altamente ocupado em fazer nada . E nada poderia desvia-lo da prossecução de sua tarefa. Estava fadado ao acaso.

E mal já era primavera.

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