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Minha cabeça não me dá muitas opções. Tinha que retornar a trabalhar na Sobra das Sombras. Passo o dia a me perturbar com meus pensamentos. Eles me exploram emocionalmente e explodem nas músicas. Por conta disso a maioria delas tem nascido com espontaneidade. Digo, são improvisadas, como a dilatação do momento que às envolve. É a genuina representação de algo que desperta em mim, rouba por um segundo minha relação com a forma de expressão e fala em música. Gostaria de ter controle sobre isso, mas mal posso controlar minhas funções motoras.
O resultado disso é um som muito cru. Os programas de edição tem me causado uma certa irritação. Não sei se as músicas serão editadas. A princípio serão lançadas na versão ao vivo. Muito em breve poderei estar postando.
O projeto tem evoluído com mais facilidade do que eu esperava. Duas músicas já foram escritas e estão em fase de edição. Esse será um processo bem interessante, uma continuação da composição musical, um momento em que vamos buscar utilizar a edição como um instrumento, parte da criação artística. As músicas têm saído do canto escuro da sala. O diálogo freqüente com as sombras tem me escurecido. Garimpo nessa mina de carvão diamantes. Devo confessar que não paro de escutar as músicas já esboçadas. Espero em breve poder estar postando. O aparecimento de uma transitividade entre elas me deixa entusiasmado para, com o tempo, lançar um álbum temático e tornar o myspace um veículo para acompanhar as músicas que estão sendo feitas. De qualquer modo, já é assim, em uma forma disforme, oculta, que se vê mas não se entende, que envolve incompreensivelmente em sombras. Disfarço-me nas Sobras das Sombras.

Por Paul Schiek
Sobra das Sombras
O novo projeto
Sobra
das
Sombras
reuni músicas desenvolvidas por um sentimento resistente em minha cabeça nos últimos tempos.
Sentimentos que não me abandonam e me exploram para que se d e s e n v o l v a m, fazendo de mim um breve intermediário. Arrasto-me pelo escuro
para descobrir a linguagem do sentimento que me usa e assim poder entendê-lo melhor. Esse complexo de restos
que vivemos e esse mundo de espelhossohlepse, onde os reflexos significam outra coisa que não a essência. Iluminados furtivamente por um ponto fixo e figurados empedernidos ou fugazes naquilo que não somos e que está dentro de
outra coisa.
Mas tão pouco nos enxergamos
. A ausência.
O que sobra de nossa ausência é o mundo que fizemos. Um mundo de
sombras
e
de
sobras. As pessoas se assistem sem se reconhecer em comportamentos meramente ilustrativos e nos permitem o desfrute de suas sobras, sobre as quais podemos nos empanturrar, como ratos nos lixos.
Caminho pro entre as sombras.
Vigio o seu lixo.
Urubu da luz.
Sobra das Sombras
Pouco me resta.
Recolho as sobras nas sombras.
As sobras me assombram.
E me fazem parecer um pequeno garoto
olhando para a imensa sombra de minha solidão.
Ou sou eu, velho no chão,
Procurando sobras na escuridão.
Uma chuva de luz me convida
para um mergulho.
Na luz, o que eu vejo?
A sobra de homens que caminham na escuridão.
Ou a sombra de ontem
projetada por um clarão.
O que sobra nas sombras?
O que sobra das sombras?
Só posso ver quando me turva a visão.
Só posso aceitar se for de coração.
Sinceramente, eu não gostaria de estar aqui lhe fazendo este convite… contudo me resta este dever. Jamais lhe aconselharia a seguir tais palavras, ou mesmo enfrentar uma dúvida tão sincera, mas, acredite, será sua última visita a uma casa de tamanho temor. O cheiro de veneno esta nas paredes. Os peixes se debatem pelos cômodos, no chão, sufocando. A cama não é utilizada há meses e está com a poeira de 23 verões. Não se faz necessário tocar a campainha, mas uma vez lá dentro… uma vez lá dentro e toda a luz se acaba. Se não puder evitar, se não tiver mais como suportar a luz, visite o obscuroSer.

Em um desses dias me senti dentro do LHC.
Há bilhões de anos luz atrás, em um pequeno planeta estranhamente chamado de Esquina com Alpha Depois da Grande Estrela Vermelha Setor de Alimentos Ag-5381, vivia uma espécie alienígena muito semelhante à humana. Embora as semelhanças, a espécie possuía duas cabeças e longos membros, o que os possibilitava de se locomover facilmente enquanto pensavam. Uma das cabeças geralmente se responsabilizava por compreensões mundanas e de âmbito científico, ao passo que a outra se ocupava inteiramente das questões relativas ao espírito e o pensamento interiorizado. Os longos membros eram uma característica selecionada naturalmente pela extensa margem de nuvem que se concentrava na faixa mais próxima ao chão e pelas complexas necessidades de tocar os pés e de coçar as costas.
Eram seres que não poderiam ser, de forma alguma, infelizes, ou mesmo felizes, eram isentos de sentimentos e relações afetivas. A carência dessa aproximação entre eles fazia com que não se identificassem, chamando a todos por um mesmo nome, que não pode ser pronunciado por nenhuma das línguas terráqueas, mas o som se aparenta com a veloz comunicação existente entre os Gartantes, do planeta Okchorium, muito semelhante também com uma chamada de telefone.
Mas, certa vez, concluindo um experimento crucial para o desenvolvimento de novas técnicas de reaproveitamento do espirro galáctico e dos ventos de Brealítico, os quais sopram sempre do norte geográfico ou o sul magnético, um grupo teve que cortar sua segunda cabeça. Sem terem determinado qual seria a primeira, cada integrante cortou uma de suas cabeças que tinha uma função diferenciada. A crise entre os integrantes do grupo ameaçava o projeto. Diferenças começaram a surgir. Os alienígenas não conseguiam mais compreender as regras do convívio que era eternizado de maneira saudável e o grupo entrou em completo declínio. Para que eles não afetassem a ordem mundial foram trancados na sala do almoxarifado, junto com os produtos de limpeza e as papeladas dos processos atrasados.
Sem ter uma atividade melhor para desempenhar, a equipe iniciou um entretida corrida de prótons por entre os canais de um LHC (Líquido Hidráulico Corretor) – corrida que mais tarde viraria febre dos jogos paraolímpicos do planeta Argotericos Tremoi Estrada Do Sol nº 405.
Milhões de anos luz depois, dentro do Líquido Hidráulico Corretor, formou-se uma criaturinha estranha, com uma cabeça apenas, a semelhança de seus criadores, e com atitudes um tanto intempestivas, afincos da alta velocidade, presos no LHC, girando e girando. O nome que foi dado a essas criaturas também é impossível de se pronunciar em qualquer língua terráquea, mas os povos de Argotericos Tremoi Estrada Do Sol nº 405 deram uma denominação própria, que soaria mais ou menos como huma-duma-trema-nos, reduzido no linguajar popular para huma-nos.
HAHAHAHAHAHAHA!
É isso, camaradas! Aquele momento finalmente chegou. É a hora das diretrizes mundiais mudarem de rumo. É hora de abrir os olhos, pois o vento vai mudar. Levantar âncoras, içar velas, desfazer as amarras, toda força ao norte.
Deixem que eu me explique: minha euforia não surge de um anti-americanismo cego. Não. É só porque eu já especulava isso a algum tempo (na verdade, uma vez eu estava bêbado a 4 anos atrás, após umas aulas na faculdade, e avisei aos meus amigos que isso aconteceria, mas ninguém acreditou em mim) e finalmente chegou a hora. É a hora de darmos a volta, de descoroarmos quem roubou a coroa. É o fim da matemática do diabo.
“It’s the devil’s way now There’s no way out You can scream & you can shout It’s too late now Because You have not been paying attention.” (RadioHead)Estamos observando agora e não vamos vacilar. HAHAHAHAHAHAHAHA! É a nossa vez! HAHAHAHA!
“Se você já sabeQuem vendeu
Aquela bomba pro Iraque,

Desembuche:
Eu desconfio que foi o Bush. Foi o Bush,
Foi o Bush,
Foi o Bush. Onde haverá um recurso
Para dar um bom repuxo
No companheiro Bush?
Quem arranja um alicate
Que acerte aquela fase
Ou corrija aquele fuso?Talvez um parafuso
Que tá faltando nele
Melhore aquele abuso.
Um chip que desligue
Aquele terremoto,
Aquela coqueluche.” (Tom Zé)
Foi o Bush – hehehehehe – foi o Bush!
“A realidade não pode ser nada mais que um texto, uma construção simbólica que é, ela mesma, referente a outros textos – não a história ou à estrutura social – de modo arbitrário” (Alexander Wendt, 1995: 103)
Já eram mais de 6 e meia e o sol ainda apontava no horizonte dando a sua última aquecida na terra antes de um frio cruel atingir a minha espinha. O resto do muro de pedras era um confortável assento para quem passou o dia inteiro enfrentando a si em montanhas e rios pantanosos. Poucos dias atrás o povo estava em frente à Casa Rosada e agora o que restava era uma tremenda ressaca ideológica da manifestação. As televisões passavam jornais e travestis o tempo todo e minhas conversas tomavam sempre o mesmo rumo. Diego acende um cigarro de fumo que ele mesmo fechou e me olha com bastante atenção, mas com tanta atenção que quase me obriga a dizer alguma coisa. As palavras em castelhano saem como poesia de minha boca e ele me fita nos olhos fazendo com que eu me sinta extremamente importante e coerente. Uma bela mulher estava em pé atrás dele tentando fazer sobreviver plantas que para mim a muito já haviam morrido. Dizia que talvéz em Setembro teria um jardim bonito se continuasse regando todos os dias. Ela era linda e sua beleza me inspirava sempre que sorria a favor da luz e seu rosto se confundia com a face do Sol. A menininha que andava de um lado para o outro ameaçava cair me chamando a atenção e exigindo de mim um extremo cuidado. Eu me sentia muito bem. E Diego soprava a fumaça enquanto me falava sobre política como quem conversa sobre poesia, sem entusiasmos desnecessários e com uma leveza que se ora parecia sóbria parecia ébria e se ora parecia ébria parecia sóbria. Eu me deixava guiar por aquela estranha sensação de estar sonhando.
Sentando-se ao meu lado me dizia que já bastava, que estavam todos cansados. Mas estava calmo, parecia já ter feito a sua opção e estava alí, meio ausente como quem desfruta de uma onipresença. A mulher em pé me cativava e em intervalos de tempo roubava minha atenção completamente para ela. E me sorria mais uma vez me concedendo toda a sua leveza e me fazendo abandonar-me em um sentimento que eu nunca havia experimentado. Uma tranquilidade que não me inquietava. Estava bem em estar tranquilo. Esperava que eles estivessem vivenciando os mesmos sentimentos naquele momento, mas não posso garantir. Diego me deixa à vontade para que pudesse caminhar um pouco e dar uma olhada ao redor. Sem hesitar, o fiz. Percebi que sentiria saudades da mulher e sua filhinha, que seu sorriso me faria um vazio, mas o guardaria na memória revivendo aqueles instantes em que ela me fornecia em doses grandes um pouco da leveza que carregava consigo. Ela estava se recolhendo e talvez só a veria mais tarde, pela noite, quando eu retornasse para tomar um vinho e conversar. Caminhei por entre as casas e o pátio e senti uma força contemplativa me aflorando em uma paz que não saberia explicar. Aquelas pessoas haviam me trazido isso e eu estava enormemente grato.
“EL camino es largo, pero tengo que seguir
aunque sea tarde en los hijos por venir
Saque el pueblo del silencio
Hoy es tu vez de vivir o morir
Vivir o morir”
(Los Chicos de Ayer – Vanguart)
Tu, que és a mais fétida existência,
Tu, que consomes a profunda ferida da razão
e que encantas os pensamentos,
Tu, insensata pureza,
não mais jantará sobre meu peito a lástima deste dia,
pois é tempo de crueldade
e a visão não está em ordem.
Este corpo,
sobre o qual antes descançava o urubú de tua lembrança,
agora tem gravado na ferida o verme do meu sufrágio.
O teu encantamento encerrou a sua refeição.
Já devoraram o porco da esperança
e não mais esperaremos sentados pela névoa de meus pensamentos.
Pois agora janto sobre mim mesmo a gordura de minha infelicidade
e babo pelos cantos a minha última lástima.

