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Tudo estava perfeitamente normal até o ano de 2008, para Rodrigo T. O fim da faculdade e a origem de diversos planejamentos que haveriam de dar errado. Mas algo acontece quando vira o ano. Não algo físico, como a rotação da terra ou a distância entre o período de tempo marcado por um segundo (não até então). Mas um acontecimento de maior importância para T. ocorre em sua cabeça. Meio confuso com tanta confusão, pessoas gritando e circulando e um grupo começa a contagem regressiva para o ano acabar antes do outro que inicia logo depois a contagem e então o ano parece mudar em tempos diferentes e há quem diga em algum lugar do mundo que o ano já mudou alguma coisa parece que vai explodir o big bang se aproxima as pessoas estão gritando se agitam alguns se jogam na água outros se abraçam a música começa a praia se esconde atrás das pessoas e dos lixos e o ano já começa mal para a praia que não parece estar comemorando a virada e todos fazem votos, mas T. não viu nada, tudo está a mesma coisa. E todo ano T. se pergunta se é isso mesmo ou se aconteceu algo que ele deixou passar… se é só isso a virada de ano.

As luzes. Existem luzes em alguns lugares e um barulho extremo. A menina de vestido florido lhe passa diante dos olhos e lhe rouba a atenção. A menina de roupa azul cintila na noite, o rapaz de camisa laranja caminha de costas para T. A música grita no ouvido de T. A música grita no ouvido de T. As pessoas circulam e a música grita no ouvido de T. Corre, T. Corre.

Rodrigo T. vaga pela praia. A lua sorri. Mas T. não entende. Logo se aproxima de outro amontoado de pessoas. Onde começa um e acabam os outros. O amontoado é um corpo só e T. não quer perder seu corpo, sua forma para pertencer a algo disforme e bizarro. T. procura as cabeças para talvez encontrar um ouvido e uma boca com que possa conversar. Mas as bocas estão ocupadas demais e os ouvidos estão obstruídos pela música ruidosa. T. se desloca mais uma vez por se sentir deslocado.

Rodrigo T. caminha até chegar a um vilarejo. Logo no centro da vila está o portão do inferno. Pessoas se digladiam por um pequeno espaço enquanto um diabo lhes obriga a arremessar seus corpos de maneira sensual para matar sua sede ninfomaníaca. E cada vez que as pessoas se mexem conforme o mando do diabo, diabo se tornam. É preciso fugir. E T. atravessa o cardume de pessoas apressado para atingir a outra extremidade.

Sim. A calma. A calma jamais dura muito tempo para T. Alguém grita seu nome. Alguém conhecido. Mas trás nuvens nos olhos. E T. não consegue lhe dirigir a palavra. Dá as costas e sai deixando o alguém sozinho na rua, para entrar num caminho em meio a mata. Uma mata que comemora a virada. Uma mata que encontra forças perante a patologia que lhe atinge para de alguma maneira comemorar a passagem de ano. E Rodrigo T. nota que a mata tem algo guardado em si. Tem algo que só ela sabe. O morcego comemora a chegada de T., o homem de pedra toca seu piano para dar continuidade a festa, uma rocha se junta a eles para fazer companhia e a mata está enfeitada. É festa para T. agora. Nem o sol pode por fim a essa noite. Ao contrário, é convidado imprescindível e traz consigo uma noite mais iluminada na qual T. poderá dormir tranquilamente em sua barraca…