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Dessa vez Rodrigo T. seguia à pé para o trabalho. Não era tão longe de sua casa e poderia chegar em tempo se fosse andando. A distância não exige paradas para descanso e logo ele chegaria. A cidade anunciava a repartição pública, a buzina dos carros desesperados para chegar e sair, o engarrafamento, os ônibus jorrando fumaça, os pedestres numa mistura heterogênea que parecia não ter dado muito certo se chocavam como prótons nas calçadas. A qualquer hora poderia ocorrer um Big Bang. E Rodrigo T. achava tudo aquilo tão semelhante ao seu trabalho. Para atravessar a rua foi necessário esperar o sinal, mas o sinal parecia estar esperando um sinal, o que deu tempo para T. buscar uma sombra e pensar em nada por um tempo. Pensar em nada sempre deu a T. um certo orgasmo, sentia-se ausente durante aqueles segundos, para depois voltar e atravessar a rua.

No trabalho, o mesmo de sempre. Às vezes parecia estar numa recicladora de papel. Seu objetivo: livrar-se de toda aquela papelada sobre a sua mesa até o final da manhã. Mas esse dia foi marcado por algo especial. T. resolveu empreitar uma aventura e descobrir o Primeiro Andar. Não sei se já falei sobre os seres que habitam este andar, são espécies maravilhosas mas sombrias, o vocabulário delas se limita a umas poucas palavras e os seres do primeiro andar têm a fantástica habilidade de se multiplicarem. Muito antes de T. sonhar em trabalhar lá, eles já haviam tomado todo o Segundo Andar e estavam prestes a tomar o prédio. Os mais ousados, que arriscavam falar sobre esses seres, afirmavam que era o poder da “grana”. T. ficava por horas imaginando o que seria esse tal poder da “grana”, mas jamais chegaria a conhecer, ao menos não neste trabalho. E o elevador se aproximava do número 1. “Atenção”- e uma sirene tocava – “Atenção, portas se abrindo”. Aquele alarme declarava a chegada ao Primeiro Andar. T. tinha muito medo do poderia vir a ocorrer, nunca se sentira tão nervoso. A porta estava aberta. A sua frente, um pequeno letreiro, não muito alarmante, dizia: Central de Negócios.

Era terrível. Que espécie de negócios estavam sendo tramados ali? Quais as coisas terríveis que eram negociadas ali? T. mal poderia compreender o que estava diante dos seus olhos, quando presenciou um momento raro. Duas representantes das espécies que habitavam aquele andar passaram por sua frente. Eram fantásticas. Nas faces, várias tonalidades de cores adornavam o rosto, o odor era inconfundivelmente doce, elas andavam sobre pilares altíssimos e por um instante Rodrigo T. teve que se esquivar para não ser pisado. Estava pasmo e seu coração acelerava. Numa mistura de fascínio e medo, T. se esgueirou até a porta que dava para as escadas onde pode respirar aliviado.