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Em um desses dias me senti dentro do LHC.
Há bilhões de anos luz atrás, em um pequeno planeta estranhamente chamado de Esquina com Alpha Depois da Grande Estrela Vermelha Setor de Alimentos Ag-5381, vivia uma espécie alienígena muito semelhante à humana. Embora as semelhanças, a espécie possuía duas cabeças e longos membros, o que os possibilitava de se locomover facilmente enquanto pensavam. Uma das cabeças geralmente se responsabilizava por compreensões mundanas e de âmbito científico, ao passo que a outra se ocupava inteiramente das questões relativas ao espírito e o pensamento interiorizado. Os longos membros eram uma característica selecionada naturalmente pela extensa margem de nuvem que se concentrava na faixa mais próxima ao chão e pelas complexas necessidades de tocar os pés e de coçar as costas.
Eram seres que não poderiam ser, de forma alguma, infelizes, ou mesmo felizes, eram isentos de sentimentos e relações afetivas. A carência dessa aproximação entre eles fazia com que não se identificassem, chamando a todos por um mesmo nome, que não pode ser pronunciado por nenhuma das línguas terráqueas, mas o som se aparenta com a veloz comunicação existente entre os Gartantes, do planeta Okchorium, muito semelhante também com uma chamada de telefone.
Mas, certa vez, concluindo um experimento crucial para o desenvolvimento de novas técnicas de reaproveitamento do espirro galáctico e dos ventos de Brealítico, os quais sopram sempre do norte geográfico ou o sul magnético, um grupo teve que cortar sua segunda cabeça. Sem terem determinado qual seria a primeira, cada integrante cortou uma de suas cabeças que tinha uma função diferenciada. A crise entre os integrantes do grupo ameaçava o projeto. Diferenças começaram a surgir. Os alienígenas não conseguiam mais compreender as regras do convívio que era eternizado de maneira saudável e o grupo entrou em completo declínio. Para que eles não afetassem a ordem mundial foram trancados na sala do almoxarifado, junto com os produtos de limpeza e as papeladas dos processos atrasados.
Sem ter uma atividade melhor para desempenhar, a equipe iniciou um entretida corrida de prótons por entre os canais de um LHC (Líquido Hidráulico Corretor) – corrida que mais tarde viraria febre dos jogos paraolímpicos do planeta Argotericos Tremoi Estrada Do Sol nº 405.
Milhões de anos luz depois, dentro do Líquido Hidráulico Corretor, formou-se uma criaturinha estranha, com uma cabeça apenas, a semelhança de seus criadores, e com atitudes um tanto intempestivas, afincos da alta velocidade, presos no LHC, girando e girando. O nome que foi dado a essas criaturas também é impossível de se pronunciar em qualquer língua terráquea, mas os povos de Argotericos Tremoi Estrada Do Sol nº 405 deram uma denominação própria, que soaria mais ou menos como huma-duma-trema-nos, reduzido no linguajar popular para huma-nos.
HAHAHAHAHAHAHA!
É isso, camaradas! Aquele momento finalmente chegou. É a hora das diretrizes mundiais mudarem de rumo. É hora de abrir os olhos, pois o vento vai mudar. Levantar âncoras, içar velas, desfazer as amarras, toda força ao norte.
Deixem que eu me explique: minha euforia não surge de um anti-americanismo cego. Não. É só porque eu já especulava isso a algum tempo (na verdade, uma vez eu estava bêbado a 4 anos atrás, após umas aulas na faculdade, e avisei aos meus amigos que isso aconteceria, mas ninguém acreditou em mim) e finalmente chegou a hora. É a hora de darmos a volta, de descoroarmos quem roubou a coroa. É o fim da matemática do diabo.
“It’s the devil’s way now There’s no way out You can scream & you can shout It’s too late now Because You have not been paying attention.” (RadioHead)Estamos observando agora e não vamos vacilar. HAHAHAHAHAHAHAHA! É a nossa vez! HAHAHAHA!
“Se você já sabeQuem vendeu
Aquela bomba pro Iraque,

Desembuche:
Eu desconfio que foi o Bush. Foi o Bush,
Foi o Bush,
Foi o Bush. Onde haverá um recurso
Para dar um bom repuxo
No companheiro Bush?
Quem arranja um alicate
Que acerte aquela fase
Ou corrija aquele fuso?Talvez um parafuso
Que tá faltando nele
Melhore aquele abuso.
Um chip que desligue
Aquele terremoto,
Aquela coqueluche.” (Tom Zé)
Foi o Bush – hehehehehe – foi o Bush!
O biólogo alemão Josef H. Reichholf descobriu algo que EU já tinha descoberto a muito tempo. Em seu mais novo livro, que começou a ser vendido nesta terça-feira (09/09), entitulado “Warum die Menschen Sesshaft Wurden” (danem-se pra entender, isso pode ser qualquer coisa), o biólogo descreve como o homem se tornou sedentário e agrícultor. Em conversa no barzinho – no Quintal, para os que conhecem a boemia de Salvador – Josef, que se apresentou a mim como um ator desempregado – nada original – roubou descaradamente a minha teoria e publicou em seu livro. O que EU já sabia e que ele roubou de mim é o fato dos homens que iniciaram a revolução neolítica, como expliquei a ele, terem iniciado o sedentarismo e as práticas agrícolas para tomar CERVEJA. Porra! É claro Josef!
Bom, mais agora ele é que ficou famoso e eu não guardo ressentimentos. Um forte abraço pro meu amigo Josef. Saúde!!
A realidade é o playground da vida.
Se não eram umas sete, eram umas oito, oito e meia. Rodrigo T. chega risonho à festa no casarão. Luzes, vozes, música. Uma bandinha de fanfarra já estava animada enquanto o noivo dançava alegremente, rodeado por criancinhas e amigos que se sacudiam no rítmo da música. – Você me consegue uma cerveja, por favor? E em meia hora Rodrigo T. já era amigo do garçom, já brindavam e riam juntos, – Sabe esse negoço de se casar é uma onda bonita da porra, né não? Rodrigo T. fazia pausas repentinas, olhava para os lados e procurava um ponto de equilíbrio. Aquela amizade com o garçom tinha lhe rendido uma baita tontura. Um cigarro. Sim, um cigarro e não um cigarro qualquer, um cigarro de palha. Sim, um cigarro de palha viria bem a calhar.
- É esse negoço, rapaz … – uma pausa – esse negoço… – outra pausa, mas essa por conta da loira que passava e olhava nos olhos de Rodrigo T. – mas que coisa rapaz… sim, esse negoço das pessoas serem pouco contemplativas, de não se relacionarem diretamente com a natureza dos fatos, mas com a ciência religiosa que constrói em torno deles uma espécie de áurea intocável, quase um campo de força, é que deixa as pessoas tapadas, meio abobalhadas, sabe? Rodrigo T. conversava com um amigo que devorava com entusiasmo um delicioso espetinho de camarão. As mulheres desfilavam para eles e, vez ou outra, a conversa perdia o rumo e se distanciava do plano imaginário para se concentrar na carne das meninas.
Não demorou muito para T. começar a perambular pela festa, meio ébrio, mas ainda de pé. O noivo chega para falar com ele. Já haviam se cumprimentado na chegada, mas agora estavam ambos chapados. Rodrigo T. jamais lembraria daquela conversa. Do que foi dito, ao menos, T. não lembraria nada. – Porra meu velho… – o noivo responderia sacudindo a cabeça freneticamente – hurru… hehehehe – T. responde – hahaha, né? – sentindo-se animado com a conversa o noivo continua – porraaa, hehehehe – T. não sabe se entendeu ou não, olha pro lado, se distrai, a conversa perde o significado, o noivo pende para um lado, depois para o outro, olha mais um a vez para seu interlocutor até se entediar do silêncio e ir buscar conversa com alguém mais interessante.
T. se distancia um pouco da casa e percorre o jardim até um ponto onde existe um aglomerado de pessoas. Olha para elas. Diz algo que seria impossível lembrar mesmo se tivesse entendido o que havia dito. Conversam sobre uma banda. Rodrigo T. afirma com convicção que a banda é muito boa, até descobrir que faz parte dela. O grupo começa a se disperçar, T. sente uma tontura, senta no gramado, logo abaixo de uma árvore velha e imponente, repousa o copo de Whisky ao lado e deita, profundamente sozinho dentro de si. Aos poucos T. se torna parte do chão, as formigas passeiam por ele e mesmo um grupo de festeiros errantes repousa ao seu lado para uma conversa e um pique-nique noturno, regado aos famosos espetinhos de camarão e muito whisky. Mas T. permanece alí, imerso no nada, como antes da criação do planeta, no escuro, sem respostas nem perguntas.
“A realidade não pode ser nada mais que um texto, uma construção simbólica que é, ela mesma, referente a outros textos – não a história ou à estrutura social – de modo arbitrário” (Alexander Wendt, 1995: 103)
Após uma dedicada observação dos blogs em geral, reconheci que estes são as mais novas, as mais modernas revistas de fofocas pessoais. Cada qual faz sua fofoca sobre o que está rolando em sua vida e se torna um entidade pública. Os blogs têm sido, cada vez mais, a projeção do pessoalismo para a mundialização globalizada. Nós, invisíveis ao olho nú, buscamos a margem adequada para nossas idéias e tentamos angariar aliados através do blog. Como diria Michel Melamed, eu poderia estar matando, roubando, mas estou aqui escrevendo um blog. O imperativo da palavra traz a emoção de ter pessoas visualizando as suas idéias e as digerindo, comentando, concordando, descordando e aceitando. Porém, sou mal acostumado à arte. Jamais poderei fazer relatos sinceros sem que por eles passem a aquarela artística. Um professor meu me disse certa vez – e me disse olho no olho, naquela linguagem ultrapassada em que duas pessoas se encontram e conversam – que, ao passo que a filosofia busca entender a natureza e a ciência busca explicá-la, a arte é a única coisa que toca a natureza.
Gosto de tocar a natureza para poder senti-la. Gosto da busca por entendê-la, mas, em meio a essa busca, eu me atrapalho e tropeço e me misturo a natureza. Desse modo estarei estreando, em breve, a categoria “quero ser Rodrigo Torres Almeida”, com vínculos criativos com o filme – Malkovich Malkovich Malkovich.
Essa categoria será um toque na minha natureza. Na minha natureza humana, urbana e selvagem. Como se eu fosse títere de mim mesmo, guiarei por cordas invisíveis as minhas ações, já posso até me sentir controlado, com cortes na boca que me fazem falar a fala que não é minha mas se torna, andando desengonçado e com os braços pendurados ao vento. É início de uma vontade repentina de eu mesmo me tornar eu mesmo. Quero ser Rodrigo Torres Almeida.
Já eram mais de 6 e meia e o sol ainda apontava no horizonte dando a sua última aquecida na terra antes de um frio cruel atingir a minha espinha. O resto do muro de pedras era um confortável assento para quem passou o dia inteiro enfrentando a si em montanhas e rios pantanosos. Poucos dias atrás o povo estava em frente à Casa Rosada e agora o que restava era uma tremenda ressaca ideológica da manifestação. As televisões passavam jornais e travestis o tempo todo e minhas conversas tomavam sempre o mesmo rumo. Diego acende um cigarro de fumo que ele mesmo fechou e me olha com bastante atenção, mas com tanta atenção que quase me obriga a dizer alguma coisa. As palavras em castelhano saem como poesia de minha boca e ele me fita nos olhos fazendo com que eu me sinta extremamente importante e coerente. Uma bela mulher estava em pé atrás dele tentando fazer sobreviver plantas que para mim a muito já haviam morrido. Dizia que talvéz em Setembro teria um jardim bonito se continuasse regando todos os dias. Ela era linda e sua beleza me inspirava sempre que sorria a favor da luz e seu rosto se confundia com a face do Sol. A menininha que andava de um lado para o outro ameaçava cair me chamando a atenção e exigindo de mim um extremo cuidado. Eu me sentia muito bem. E Diego soprava a fumaça enquanto me falava sobre política como quem conversa sobre poesia, sem entusiasmos desnecessários e com uma leveza que se ora parecia sóbria parecia ébria e se ora parecia ébria parecia sóbria. Eu me deixava guiar por aquela estranha sensação de estar sonhando.
Sentando-se ao meu lado me dizia que já bastava, que estavam todos cansados. Mas estava calmo, parecia já ter feito a sua opção e estava alí, meio ausente como quem desfruta de uma onipresença. A mulher em pé me cativava e em intervalos de tempo roubava minha atenção completamente para ela. E me sorria mais uma vez me concedendo toda a sua leveza e me fazendo abandonar-me em um sentimento que eu nunca havia experimentado. Uma tranquilidade que não me inquietava. Estava bem em estar tranquilo. Esperava que eles estivessem vivenciando os mesmos sentimentos naquele momento, mas não posso garantir. Diego me deixa à vontade para que pudesse caminhar um pouco e dar uma olhada ao redor. Sem hesitar, o fiz. Percebi que sentiria saudades da mulher e sua filhinha, que seu sorriso me faria um vazio, mas o guardaria na memória revivendo aqueles instantes em que ela me fornecia em doses grandes um pouco da leveza que carregava consigo. Ela estava se recolhendo e talvez só a veria mais tarde, pela noite, quando eu retornasse para tomar um vinho e conversar. Caminhei por entre as casas e o pátio e senti uma força contemplativa me aflorando em uma paz que não saberia explicar. Aquelas pessoas haviam me trazido isso e eu estava enormemente grato.
“EL camino es largo, pero tengo que seguir
aunque sea tarde en los hijos por venir
Saque el pueblo del silencio
Hoy es tu vez de vivir o morir
Vivir o morir”
(Los Chicos de Ayer – Vanguart)
