Qual é o hormônio da tristeza?
Qual é a minha altura e o meu peso?
Se eu desisto é uma palavra minha.
O medo não prolifera a raiva e eu não sou você. Vivo a doce conclusão do infinito. Eu gostaria de ter as palavras certas para usar, mas não consigo assimilar as questões mais simples, assim como não posso me distanciar do medo. Seus dedos escorregando pelas minhas costas, eu penso que sentir sua falta é a prova de nossa glória. Já não sou mais tão velho para escolher qualquer canção. São ou não são, nem se estão, vão e vão, ou vão em vão. Arrebenta a palavra contra a parede. Sei que repito. Sem um jeito mais simples, eu estou aqui e a muito tempo me esqueci de cativar a solidão. Às vezes nem parece que eu sou louco. Nem me sinto como tal, como o tal. Viviviviviviviviviviviviiiiiiiiiiiiiiiiiii. Por quanto a tristeza. Por seis mil. E se eu grito. Não surte efeito mesmo, eu não vou triunfar. E todo esse tempo a esperar. Eu sinto o seu carinho me levar. Estou seduzido. O quanto eu vivi, por quanto eu vivi. Com a boca aberta. A língua pra fora. A garganta inflamada. Mesmo que eu quis que eu quis e que quis quis que eu quis que eu eu quis. Mesmo lugar. Onde eu estou. E se me apetece me mudar. Pra onde eu vou. Como eu quis amar. Agora é um perigo. Eu cilada. Você ouviu. A enfermidade se aproximar e não me disse que entre mim e você não existe muita coisa, pois tudo é onda estacionada esperando para arrebentar, tudo é energia, tudo é uma questão de observar o mar. Agora eu respiro pra pensar. Só a destruição constrói. Só o inevitável é certeza. O resto são possibilidades. Tudo é possível, menos o inevitável. Estou certo disso. Invariável. Toda negação é certeza. Inquestionável. Imensurável. Inarrável. Inefável. Mesmo assim. Eu vou. Mesmo que desapareça eu vou, não . Os dedos escapam da caneta e da caneta escapa a canção. Ou melhor, os dedos escapam da caneta e da caneta escapa a emoção. Ou melhor, os dedos escapam da caneta, descem a escada para o estacionamento, roubam o carro e ganham o mundo sem fim. O deserto abissal. Diferente vontade, palavra igual. Posso me sentir. Se me toco com meus dedos posso me sentir. Então eu talvez exista mesmo. Não é só aquela sensação louca de quando acordo e parece que de fato existe um mundo ao meu redor e que tudo existe e que eu estava em um lugar onde nada existe e agora é um lugar diferente. Não. É mesmo real. Ou devia ser. Pois quando eu acordo tenho a honesta sensação de estar existindo. Depois vem o esvaziamento completo. Tudo é mais claro quando eu estou dormindo. Toda noite eu sonho em poder dormir. E aquele completo desajuste. Na hora errada no lugar errado. O azar. Ou um incrível sentimento, uma habilidade para o reconhecimento de uma boa maré de azar, e então um bom aproveitamento do vento e das condições do tempo. Tempestade o tempo todo. O tempo todo. A eternidade. O infinito. A certeza de estar errado. A negação. A forma de dentro. A fôrma de dentro não é a mesma fôrma utilizada para o acabamento externo. As palavras você não pendura na parede ou no teto. Você deixa elas na sala, ou rolarem escada a baixo, ou elas buzinam na porta, nem sempre você abre. Muitas vezes elas querem saltar. A janela. O décimo primeiro andar. Está em tudo que faço, está em tudo que beijo. Eu agora vejo que é impossível viver sem poesia.
Só o impossível é certeza, o resto são possibilidades.

Simular to a baptism - foto por Paul Schiek
Incommunicable
I can feel my whole sovereingty on me
I say you a word
You mumble.
Concave winds
discover the simple path of my metaphors
and coalesces in my chest its implicit presence
that for my idea smile without saying exactly the muted word
leaving the doubt of consent that i can`t abstract your wishes
in
wishes
mine.
Away from the road
remains that figure from nowhere to disapear in my feelings
while the wait for meet you transfer to me the anger and courage
to get what I always got,
like if your way was argue my road.
Passersby feelings
ensnare my awareness of myself in a parachute on fire
and call me once more to sprout wings in the infinite fall of thinking and feeling.
Awake
in a dream
that in reality
is motion.
Na rua se amontoava um grupo cada vez maior. Todos na porta a espreitar o que tinha acontecido, mas de fora o máximo que se podia ver eram as costas sombrias dos homens altos quando a pequena garota atravessou a barreira para dentro da casa deixando com que uma flecha de luz disparasse para fora. Só uma velha lamparina iluminava o aposento principal, onde o doente estava recostado. O sofá não parecia muito confortável, mas o travesseiro abaixo de sua cabeça e outro nos seus pés deixavam o enfermo o mais cômodo possível. A menina retirou o pano que cobria a cabeça e ajoelho-se próximo ao corpo para rezar. O fogo da lamparina oscilava e mudava as expressões nos rostos dos presentes entre pesar e esperança. Uma mulher sai de um canto escuro e com uma palavra de ordem a garota se ergue em um salto. O doente, já com os olhos abertos, toma as mãos das duas e, somente para ele, o quarto vai parecendo cada vez mais escuro até se apagar em uma escuridão mórbida.

foto por Nina Ahn
(sim, é para você… e o que mais eu posso fazer?)
Fico pensando no que você está fazendo agora.
Se está acordada.
Se está no banheiro
ou na sala.
No que você pensa quando se encara no espelho.
Se você quer saber o que eu penso.
Se você quer saber o que eu vejo quando me encaro no espelho.
Se eu te desejo quando não te tenho.
Se quando eu te vejo é sonho ou pesadelo.
A tv que deve estar ligada
num canal que não passa nada.
Sua razão pode estar alterada.
A janela deve estar fechada
porque faz frio.
Faz rio
porque chove muito lá fora.
Fico imaginando o que você está fazendo agora,
enquanto a eternidade me rouba o instante.
Espero paciente pela tristeza que se esconde.
Se ando algumas quadras talvez possa te ver de longe.
Espero paciente pela alegria de ontem.
Se volto a sonhar talvez te encontre.

pintura por Brendan Flanagan
Estava chovendo forte, o céu ameaçava relâmpagos, mas com a claridade do dia ainda não se podia ver se de fato estava relampejando… Toma isso, oh, e põe ali para escorrer… Saímos no meio da tempestade (dá pra imaginar?) e corremos aí umas cinco quadras, você não imagina, mas chegamos ensopados, mas tão ensopados que… me passa isso aí… não, isso aí na sua frente, aí, com a mão direita… chegamos tão ensopados que mal conseguíamos respirar e um senhor chegou da rua de baixo nos oferecendo umas máscaras de oxigênio que tinha para vender. Ele olhou no bolso e não tinha um centavo, eu tinha umas moedas no bolso para o ônibus que não davam pra comprar… tá escutando? (Olha, isso você segura assim, com as duas mãos e firme, que é para não cair…) Então deu nele de voltar para pegar o dinheiro, a final de contas precisávamos respirar… não, segura assim… e subimos toda a ladeira de volta naquele calor, com o sol forte que faz nessa época do ano, subimos duas quadras depois `a direita para tornar a virar a esquerda. Aí tem um pátio enorme que se você continuar subindo chega nessa cachoeira que fomos, tomamos banho e saímos correndo a caçar borboletas. As borboletas se escondem quando vêem animais que não são plantas, que não têm flores e aquelas raízes para roubar da terra (toma, pega isso, agora daquela forma que te falei… não… isso…) roubar sais e minerais, mas sempre que fazem isso, uma vez mortas, lhes toca devolver, pegamos o dinheiro que precisávamos e fomos comprar as máscaras de oxigênio. Quando chegamos já me faltava ar, tive que respirar bem fundo para voltar a ver borboletas.
Ele caminha sozinho. Já faz alguns dias que está longe de casa. Ele se sente confuso e o vento frio em contato com o seu corpo o faz relembrar toda a dor que sente e o quanto esta dor tem sido seu motor. O quanto a fraqueza é sua companheira e agora toma seu corpo magro como se fizesse dele alimento. Sim, ele está fraco e sem inspiração, cansado por ainda não entender a vida e sua direção. Poderia mesmo supor que está morto por dentro, se não fosse prova de vida a imensa dor que sente. Se arrasta pelo chão com os olhos fundos, cansados, tonto. Só tem um pensamento. Mas vai ficar um tempo, mesmo sabendo que seria melhor ir. Vai ter que suportar a dor por mais tempo, prender a respiração, ver sangrar a ferida e talvez, pela primeira vez, tentar se curar. Ele está ficando, na hora de ir.

see you - foto por Paul Schiek
(para Natalie)
Esta noite te vi flutuando por aí.
Estava longe, mas se aproximava de mim.
Nada me disse, mas tive a impressão de ouvir.
Ficou alegre em me ver e se pôs a sorrir.
Eu não sabia se eu estava te vendo
ou se fui eu que para você apareci.
Esta noite te vi flutuando por aí.
Não me arrependo,
embora muito soubesse
que talvez estivesse
somente dentro de mim.
Talvez meus olhos estivessem brilhando
como `as vezes me acontece
e meu corpo adormece
e minha respiração já não obedece
e o coração padece.
Talvez fosse mesmo você flutuando
como `as vezes te despertas
e teu corpo se completa
e tua respiração acelera
e tua alma te eleva
pois já não toca o chão.
Esta noite eu estava flutuando
quando fui dormir.
(para Natalie)
Não faz a menor diferença se estou aqui.
Nem te importa se chega o momento de sair.
Borboletas negras
voando na noite.
Não fazem a menor resistência.
Paredes ocas.
Um giro no escuro.
Não é uma coincidência.
Eu olhando pra você.
O meu sorriso mudo.