T. entra pela porta de seu quarto esbaforido. A entrevista será em meia hora a uma hora de sua casa. Sua melhor camisa. Sua melhor calça. Seu melhor sapato. Seu melhor sorriso. O ônibus não espera quem não está eperando pelo ônibus, então T. se apressa e desce a ladeira de seu apartamento voando. A chuva lhe provoca as primeiras sensações de pessimismo. Essa chuva tem trazido pessimismos a todos em Salvador nos últimos tempos. No ponto de ônibus as cascas das pessoas estão a esperar por sua vez. Parecem grilos que acabaram de se trocar e você poderia pegá-los com a mão, somente casca. Não é esse o ônibus, talvez o próximo . Ainda não. T. se abriga da chuva e espera angustiado. Já é hora de estar lá. Não mais que de repente um cardume de pessoas se move em direção a sua condução e some para sempre. T. sobe no ônibus seguinte para entrar em uma viagem por sua mente. Ele vê as cascas pela rua e o ônibus caminha na velocidade de seu pensamento, atravessando a cidade. Ninguém está ao lado dele. Por favor, me atirem.

T. chega em casa como um avião atinge o mar depois de enfrentar a força de dez furacões. Explodindo. Ele fecha a porta de seu quarto e saca do armário a mochila que o espera. Colocando-a ao chão em frente a ele, encara sua sina. Respira fundo. Estaria pronto. Está pronto. Pronto, resolve esperar e pode descançar. Mas T. sumiu. T. conseguiu o emprego. Nos próximos dias poderá trabalhar como vendedor. Preferia que fosse assim. Por favor, me atirem.

Calmaria
Por que deixar a vida te ameaçar
enquanto você se sente deitado em navalhas?
Por que deixar o amor te afetar
enquanto você dorme deitado em navalhas?
Por um momento
eu quase morro.
E esse mundo
que eu vi construir
chegaria ao fim,
em algum infinito momento
depois de morto.

Em certo tormento,
e eu quase louco,
teria destruido
o que eu não vi,
mas eu construí
em um momento absorto,
antes de morto.

(13/04/2009 – 01h30min)

E você me vem mais uma vez.

E eu posso fugir.

E eu posso me esconder

atrás de um sorriso meu,

para que eu não tenha que ouvir

você dizer,

para que eu não tenha que ver

seus olhos brilharem.

Para que eu não tenha que dizer:

eu não vou voltar!

Depois de muito tempo esperando por mim mesmo, 

ninguém veio.

Eu estou estragado.

Estou sujo de asfalto.

Os carros passam e ninguém me vê.

Saia dos meus negócios. 

 

Pule do prédio em sua piscina. 

Os juizes lhe darão nota dez.

E depois que estiver dentro do pequeno buraco,

não haverá mais nada pelo que morrer.

Onde você estacionou o carro?
A porta estará sempre aberta pra você.
O meu amor é cruel.
O meu amor é cruel.
Eu não quero te seguir voltando pra casa.
Andando
andando
andando
na lua.
Eu não quero bisbilhotar sua janela
enquanto você está amando
amando
amando.

venedig-175Sinceramente, eu não gostaria de estar aqui lhe fazendo este convite… contudo me resta este dever. Jamais lhe aconselharia a seguir tais palavras, ou mesmo enfrentar uma dúvida tão sincera, mas, acredite, será sua última visita a uma casa de tamanho temor. O cheiro de veneno esta nas paredes. Os peixes se debatem pelos cômodos, no chão, sufocando. A cama não é utilizada há meses e está com a poeira de 23 verões. Não se faz necessário tocar a campainha, mas uma vez lá dentro… uma vez lá dentro e toda a luz se acaba. Se não puder evitar, se não tiver mais como suportar a luz, visite o obscuroSer.

Por favor, não fique tão chateada.
Você não quis ler as cartas e permanece
pedindo que eu te entregue a sorte.
Ora, se não posso ser sua propriedade
é melhor que se acabe antes de alguma desordem. 

Você me pergunta:
O que é isso?
Estou mantendo você fora do caminho.
Não posso esconder,
sou um risco.
Estou mantendo você fora de perigo.

Uma janela aberta.
Eu quero mais um gole dessa noite.
O que está acontecendo?
O que está acontecendo?
Veja a árvore e a morte. 
O que está acontecendo?
O que está acontecendo?
Desconversando,
Estou mantendo você fora do meu caminho.

E você me vem

com o sorriso mudo

e o olhar cheio de palavras

me dizer que será você

a próxima a me partir o coração.

Tudo estava perfeitamente normal até o ano de 2008, para Rodrigo T. O fim da faculdade e a origem de diversos planejamentos que haveriam de dar errado. Mas algo acontece quando vira o ano. Não algo físico, como a rotação da terra ou a distância entre o período de tempo marcado por um segundo (não até então). Mas um acontecimento de maior importância para T. ocorre em sua cabeça. Meio confuso com tanta confusão, pessoas gritando e circulando e um grupo começa a contagem regressiva para o ano acabar antes do outro que inicia logo depois a contagem e então o ano parece mudar em tempos diferentes e há quem diga em algum lugar do mundo que o ano já mudou alguma coisa parece que vai explodir o big bang se aproxima as pessoas estão gritando se agitam alguns se jogam na água outros se abraçam a música começa a praia se esconde atrás das pessoas e dos lixos e o ano já começa mal para a praia que não parece estar comemorando a virada e todos fazem votos, mas T. não viu nada, tudo está a mesma coisa. E todo ano T. se pergunta se é isso mesmo ou se aconteceu algo que ele deixou passar… se é só isso a virada de ano.

As luzes. Existem luzes em alguns lugares e um barulho extremo. A menina de vestido florido lhe passa diante dos olhos e lhe rouba a atenção. A menina de roupa azul cintila na noite, o rapaz de camisa laranja caminha de costas para T. A música grita no ouvido de T. A música grita no ouvido de T. As pessoas circulam e a música grita no ouvido de T. Corre, T. Corre.

Rodrigo T. vaga pela praia. A lua sorri. Mas T. não entende. Logo se aproxima de outro amontoado de pessoas. Onde começa um e acabam os outros. O amontoado é um corpo só e T. não quer perder seu corpo, sua forma para pertencer a algo disforme e bizarro. T. procura as cabeças para talvez encontrar um ouvido e uma boca com que possa conversar. Mas as bocas estão ocupadas demais e os ouvidos estão obstruídos pela música ruidosa. T. se desloca mais uma vez por se sentir deslocado.

Rodrigo T. caminha até chegar a um vilarejo. Logo no centro da vila está o portão do inferno. Pessoas se digladiam por um pequeno espaço enquanto um diabo lhes obriga a arremessar seus corpos de maneira sensual para matar sua sede ninfomaníaca. E cada vez que as pessoas se mexem conforme o mando do diabo, diabo se tornam. É preciso fugir. E T. atravessa o cardume de pessoas apressado para atingir a outra extremidade.

Sim. A calma. A calma jamais dura muito tempo para T. Alguém grita seu nome. Alguém conhecido. Mas trás nuvens nos olhos. E T. não consegue lhe dirigir a palavra. Dá as costas e sai deixando o alguém sozinho na rua, para entrar num caminho em meio a mata. Uma mata que comemora a virada. Uma mata que encontra forças perante a patologia que lhe atinge para de alguma maneira comemorar a passagem de ano. E Rodrigo T. nota que a mata tem algo guardado em si. Tem algo que só ela sabe. O morcego comemora a chegada de T., o homem de pedra toca seu piano para dar continuidade a festa, uma rocha se junta a eles para fazer companhia e a mata está enfeitada. É festa para T. agora. Nem o sol pode por fim a essa noite. Ao contrário, é convidado imprescindível e traz consigo uma noite mais iluminada na qual T. poderá dormir tranquilamente em sua barraca…